Percebi que todos os olhos estavam voltados para mim. Eu era o primeiro colocado. Ouvi um ou outro cochicho no fundo: “Claro, é um Osfner…”, “Esses caras já nascem com vantagem”.
Rudan olhou para mim, assustado de um jeito cômico, fingindo se afastar. Já Isane permaneceu mais contida, ainda que claramente surpresa.
— C-Cara… que tipo de monstros vocês são?! — Rudan riu com um certo nervosismo, logo já estava sorrindo de novo. — Eu esperava que vocês fossem bem, mas… qual foi!?
— Não foi grande coisa… Lucen foi quem tirou a maior nota… — Isane abaixou o olhar, se encolhendo um pouco com o capuz. Sua voz saiu baixa, quase desanimada, eu queria falar alguma coisa para ela, mas Rudan acabou dizendo antes de mim.
— Ah, não começa! Você foi a terceira melhor daqui, não fique se diminuindo por ter errado uma ou outra questão. Se eu tivesse metade da sua nota, aí eu ficaria triste! E eu acho que vai ser o que eu vou tirar, mas… Quem liga, é só uma prova, ainda tem outras três! — Por mais que Rudan tenha se atropelado nas palavras, a intenção dele com certeza era mais valiosa do que qualquer conselho que eu poderia dizer.
— Acho que Rudan está certo, Isane. — Apenas concordei com ele, não queria ficar discutindo coisas técnicas sobre a prova, provavelmente era o que Isane estava pensando agora. Ela deve ter errado algo por falta de atenção, e se ficar presa a um erro superficial, poderá ser frustrante para ela.
Isane ficou em silêncio por alguns instantes, da mesma forma de quando disse meu nome para ela. Ela manteve uma cara de paisagem por alguns segundos. — …Ele não é muito bom com as palavras. — Ela mal ergueu o rosto, só apontou para Rudan com o polegar e murmurou.
— E-Ei! Eu me esforcei tanto pra falar algo legal… — Por mais que Rudan estivesse forçando um tom de voz um pouco choroso, ele ainda não podia esconder o sorriso por conta da atitude não intencional, mas engraçada, de Isane.
Nem eu pude evitar de dar uma leve risada.
— Mas… obrigada. Não posso ficar triste com algo assim… Não mais… — Isane ficou com um rubor discreto em seu rosto. Ela não estava sorrindo, mas pelo menos não parecia mais deprimida.
— É isso aí! Agora… eu não sei minha nota ainda, meu pai do céu, será que eu ainda tenho chance de passar? Acho que tô ficando com um embrulho no estômago… — Rudan ficou um pouco curvado para frente, indo em direção a um balcão para receber sua prova.
— O que respondeu naquela questão, Lucen? Você havia me dito que contaria. — Isane se aproximou de mim com quase nenhum barulho, eu estava olhando para o outro lado. Eu quase tomei um susto.
— É claro. Bom, sua lógica onde arcanistas têm vantagem faz sentido, mas você não considerou qual o nível de ambos os grupos. Se os dois grupos forem muito iniciantes, os magos corporais claramente têm vantagem, certo? — Antes que eu pudesse terminar de completar o meu raciocínio, Isane levantou os olhos e as sobrancelhas. Foi a maior demonstração de emoção dela até agora.
— Oh, porque eu não pensei nisso? Faz todo sentido… Eu só pensei no caso de magos que já possuem um certo grau de experiência… Você é um gênio. — O elogio dela me deixou um pouco desconfortável. Segurei meu cachecol, arrumando-o em meu pescoço. Eu não gosto de elogios assim…
— Não é nada, eu poderia ter acertado, assim como qualquer outro. Basta o esforço, essa prova não é impossível. Não acho que Rudan foi tão mal assim… — Afirmei tentando um sorriso gentil, tentando disfarçar meu incômodo.
Isane olhou para mim e ficou um tanto envergonhada, de forma quase imperceptível. — Oh… me desculpa se eu disse algo que não devia… — Ela era uma pessoa bem observadora, em um nível desconcertante, mas acho que tem algo a mais aí. Ela continuou, dizendo. — Você deve ter se esforçado muito, Lucen. — Ela disse isso como se eu não tivesse ‘Osfner’ estampado na testa. Como se eu tivesse vencido por mim mesmo.
— Tá tranquilo, você não fez por mal, de verdade. Muito obrigado. — Soltei o cachecol e mudei um pouco minha postura enquanto pegava uma maçã da mochila. — Quer uma?
Isane me encarou por alguns instantes, em silêncio. — Não, obrigada… E falando nele…
Rudan voltou da fila com sua prova em mãos, ele estava saltando e quase voando de alegria, literalmente.
— Eu não sei como, mas eu tirei um seis e meio! Eu ainda não consigo acreditar! — Rudan estava com o rosto brilhando de empolgação vindo ao nosso encontro. — Eu acho que ainda não tô fora do jogo!
— Eu abençoei sua prova. — Disse em um tom irônico, fechando meus olhos e juntava as mãos, brincando com ele. Logo depois disso, dei uma mordida na maçã.
— Ah, qual é! Queria um pedaço… Eu vou alcançar vocês rapidinho, fica vendo! — Ele estava bem mais animado do que antes.
— Relaxa, tenho outra na mochila. Vou esperar você no pódio então. — Disse sorrindo para os dois, mas antes que pudéssemos conversar em paz e ir para a próxima prova, ouvi uma voz até então desconhecida de alguém atrás de mim, antes de morder de novo a maçã.
— Ah… então o prodígio da linhagem Osfner honra esta humilde instituição com sua presença. Que privilégio o nosso. — Quando me virei, vi um rapaz loiro de orelhas pontudas e olhos vermelhos, com um sorriso torto no rosto — do tipo que não anunciava coisa boa. Era o rapaz que vi no telão, chamado Miken. Ele continuou falando, para minha infelicidade.
— Era óbvio que eu não iria ser o primeiro com alguém da sua excelência por aqui… — Ele deu os ombros em um tom de deboche, dando algumas risadas. — Quando se tem o nome certo gravado no papel, nem precisa ler as perguntas. A vitória já vem com o sobrenome. Se a prova for comprada, não importa o quanto você se esforce… é impossível chegar em primeiro.
Eu permaneci em silêncio. Não queria arrumar confusão, apenas suspirei e dei mais uma mordida na maçã. Estava doce, diferente da amargura da pessoa em minha frente.
— Não vai dizer nada, quer dizer que eu estou certo, não? É curioso como nós, os menos favorecidos, insistem em competir com os predestinados… — Ele se aproximou do meu rosto com o mesmo sorriso que as pessoas da minha antiga escola olhavam para mim, me subestimando. — Gênio Osfner.
— Ei… se Lucen tirou a maior nota, isso é mérito dele. Eu vi o quanto ele é inteligente. — De forma inesperada, Isane levantou o tom de voz e veio me defender.
— Isso mesmo cara, fica na boa… Se você não tirou a maior nota, só tenta vencer na próxima. Tranquilo? — Com seu jeito suave e descontraído, Rudan tentou afastar Miken de mim, não fazendo força, apenas tocando em seu ombro.
No mesmo instante, Rudan afastou a mão abanando ela, sentindo-a queimar após ter tocado no ombro dele. Miken usou alguma magia arcana com aspecto flamejante, que queimou a mão de Rudan.
— Ai! Que isso cara! — Um cheiro de queimado vinha de sua pele, os olhos dele estavam arregalados, não demonstrava tanta dor assim, mas seu olhar era o de alguém em choque. — Precisava fazer isso?! — Antes que Rudan pudesse continuar questionando a atitude dele, Miken o interrompeu.
— Calem-se. Eu nem mesmo entendi o que vocês falaram. — Ele não estava com os Receptores de Tradução nas orelhas. — Meu assunto é com ele, não tenho por que perder meu tempo com dois estrangeiros feito vocês, muito menos um urubu podre feito você.
— Ei, imbecil. — Quando Miken olhou para mim, joguei o resto da maçã que estava comendo na cara dele. — Acho que o único podre aqui é você.
Miken estava irritado, jogando para longe o resto com o qual eu havia acabado de acertar nele. — Você é um covarde. Fica se escondendo atrás do nome da sua família enquanto não enfrenta os outros de verdade.
— Ei, você está bem, Rudan? — Apenas ignorei as provocações de Miken, queria ajudar os únicos que foram legais comigo. Vi de relance o rosto de Miken se encher de ódio.
— Ah… só queimou um pouco, mas acho que vai deixar marca. Tá… tranquilo meu chapa. — Rudan estava afetado por alguma coisa, não acho que era a queimadura. Antes que eu pudesse fazer algo para ajudar, Isane agachou ao lado dele e…
— Chi-on no uta… — Escutei Isane dizer alguma coisa que não entendia pelos receptores. Ao usar uma magia arcana, na grande maioria dos casos, o usuário precisa pronunciar uma frase que o mesmo escolhe ao criar sua magia. Essa frase é chamada de Comando de Ativação. Por conta da passagem de mana pelo corpo enquanto o usuário diz o comando, os Receptores de Tradução não podem traduzir o que você diz para outras pessoas. Isane começou a assobiar uma canção, pequenas ondas cinzas cercaram as queimaduras da mão de Rudan, e então, elas sumiram por completo.
— Caramba, a minha mão…! — Rudan estava perplexo, ele olhava para a própria mão, a fechava, abria, olhava para Isane, e repetia o ciclo algumas vezes.
— Fantástico, Isane. Onde aprendeu um nó arcano? — Perguntei para ela ainda surpreso. É incomum pessoas entrarem nas escolas já sabendo utilizar magias, principalmente o arcanismo.
— Eu só sei fazer isso… aprendi quando eu era menor, com o meu… pai… — Isane hesitou bastante em sua última frase.
— Entendo… Meus parabéns, nem mesmo eu tenho um nó ainda. — Completei ajeitando o cachecol em meu pescoço, ajudando Rudan e Isane a levantarem do chão.
— Não foi nada. — Disse Isane, com sua natureza de poucas emoções.
— Muito obrigado, Isane! Quero aprender a fazer isso um dia… — Ele forçou um sorriso. Por um segundo, desviou o olhar como se não quisesse que víssemos algo — medo, talvez?
Me virei na direção de Miken. — Vamos fingir que não aconteceu nada. Você queimou a mão do meu amigo, eu joguei uma maçã em você. Vamos considerar que estamos quites… mas já deixo claro, não estamos. — Já estava cansado daquilo, então apenas dei as costas para ele.
Antes de me virar, seus olhos vermelhos encontraram os meus, me dizendo. — Isso ainda vai te custar, Osfner.
Ainda de costas, parei de andar, suspirei e olhei alguns graus para cima. — Me insulte o quanto quiser, mas você cruzou linhas que eu não tolero. A forma com que você destrata os outros por suas origens só mostra o quão ridículo você é. Se quer tanto mostrar que sou uma fraude, quero ver você tentar na próxima prova. — Isane e Rudan ficaram me encarando por um tempo, mas logo vieram atrás de mim.
Nós três ficamos em silêncio por algum tempo enquanto nos direcionamos para uma outra sala, esperando onde ficaria a próxima prova. Já estava chegando próximo ao anoitecer, e eu havia saído de casa antes mesmo do sol nascer. Rudan parecia querer dizer algo, mas permaneceu calado. Isane, por sua vez, olhava para nós dois com um pequeníssimo olhar de preocupação. Eu continuei refletindo sobre o que acabou de acontecer com Miken, além de todas aquelas pessoas aumentando o peso do meu nome, com aqueles sussurros e deboches. — Se essa foi a recepção por tirar uma nota alta… o que me espera se eu for o melhor em todas? — Pensei nisso e guardei para mim mesmo. Não adianta pensar nisso.
Por incrível que pareça, quem quebrou o silêncio entre nós três foi Isane.
— …Insuportável. — Ela foi tão direta ao ponto que nós três concordamos com a cabeça ao mesmo tempo.
— Nem me fale! Porque ele fez isso? Ele tinha que ser desqualificado… Não vai dizer nada para eles, Lucen? — Rudan me questionou enquanto bateu uma asa contra a outra, um pouco indignado.
— Vocês podem ir lá falar se quiserem, não estou impedindo vocês. Mas, se eu falar alguma coisa com os monitores, vou apenas afirmar o que ele quer. — Suspirei, me sentindo encurralado. — Falar alguma coisa seria a coisa certa, mas… Não quero depender de ninguém.
— Entendo. Você não quer fazer o que alguns pensam sobre você. Estou certa? — Isane havia acertado. É claro, tinha um certo detalhe à mais.
— Sim. Mais do que isso, sabe… É frustrante nenhuma das suas conquistas nunca ser vista por seu próprio mérito. É sempre sobre a sua condição. Quando eu não chego ao resultado esperado, diminuem o nome da minha família. Quando vou acima das expectativas, não recebo nenhum crédito… É um tanto egoísta falar isso, mas é desgastante. — Fiz um pequeno monólogo enquanto caminhávamos juntos, eu não percebi, mas os dois pararam de andar. Isane não demonstrava reação e Rudan estava surpreso, eles se entreolharam algumas vezes antes de continuar falando.
— Nunca pensei nisso desse jeito… Agora que você falou, provavelmente eu também ficaria reclamando de que os outros são melhores do que eu por conta das minhas falhas, mas… Te conhecendo melhor, você é gente boa! — Rudan disse de uma forma tão natural que deixou até mesmo Isane um pouco boquiaberta.
— Você meio que acabou de admitir que faria a mesma coisa. — Isane levantou uma das sobrancelhas ao olhar para Rudan, ela não parecia estar com raiva, mas nem mesmo quando Miken a insultou ela demonstrou isso.
— …Ué, eu disse isso? — Rudan não entendeu o que ela quis dizer. — Nem notei!
— …Rudan, presta atenção. — Isane levou a mão até o próprio rosto, a maior expressividade que ela demonstrou até agora.
Eu acho que faz algum tempo que eu conheci duas pessoas tão divertidas, isso me arrancou uma risada um pouco alta.
— Está tudo bem, vocês não precisam se preocupar com isso! — Continuei falando, ainda rindo. — Eu não me importo tanto com essas críticas, é só pela minha família. É um desrespeito com eles.
— …Ahhh! Entendi, foi mal! Se alguém ficasse falando que minha família é corrupta ou coisa assim, eu ia dar uma bicuda na cara do maluco! Faz sentido mesmo! — Rudan deu um sorriso, enquanto coçava a parte de trás da nuca.
— Isso só funcionaria se você conseguisse acertar o chute. — Isane disse em um tom com certa ironia, mas ela parecia estar falando sério. — Então… se alguém disser algo sobre o seu nome de novo, posso deixar o Rudan cuidar disso?
— Deixa comigo! É só pedir que eu acerte uma bicicleta na cabeça deles! — Rudan voou para frente e deu um chute acrobático no ar para se mostrar, como se fosse um jogador de futebol. Parece que ele tem prática nisso — as asas o ajudavam muito no impulso.
Eu ri com a pequena discussão entre os dois. — Fico feliz em saber que estou bem protegido, mas vocês seriam expulsos se fizessem algo assim. E sendo sincero, não preciso de um guarda-costas.
Caminhamos mais alguns passos pelo extenso corredor, algumas pessoas estavam seguindo o mesmo caminho que nós, afastadas. Umas solitárias, outras já formando pequenos grupos e se conhecendo um pouco melhor, até mesmo vi alguns vizinhos conhecidos que me olhavam e acenavam para mim, onde eu acenei de volta para eles.
Isane se mostrou um pouco pensativa, olhando o local do próximo teste. — Às vezes, queria que as pessoas enxergassem mais do que a primeira camada.
— Faço de suas palavras as minhas. — Concordei arrumando o cachecol no meu pescoço, por conta do frio do lado de fora.
— Então vamos mostrar pra eles isso. Vou vencer e provar que eu mereço estudar aqui! — Rudan afirma com confiança, fechando um dos punhos.
Nas provas para ingressar na Ice Barrier, achei que apenas encontraria rivais. Não estava errado — todos ainda são rivais, sejam bons ou ruins. Mesmo assim, não esperava que fosse fazer bons amigos.
créditos:
escrito por Vicarious Leal