Akedea

Capítulo 4 - Quarto Elemento

Estávamos olhando para o lado de fora, uma zona de treinamento controlada pelos examinadores. Aquele seria o local da próxima prova. Era semelhante a uma floresta coberta pela neve, com lagos congelados e raízes mortas. O domo possuía janelas apenas na parte superior. As paredes metálicas, que reforçavam toda a estrutura, nos separavam do lado exterior. Era como um grande estádio, uma arena a céu aberto, onde ocorriam os treinamentos dos alunos da instituição. Era possível ver alguns destes estudantes de longe, assim como os examinadores e monitores do exame de admissão.

Rudan deu um assobio. — Que beleza, será que a gente vai ter que lutar então? Acho que vou me destacar! — Rudan demonstrava confiança — e com razão. De fato, as asas dele seriam muito úteis em um espaço amplo como este, mesmo tratando-se de um ambiente fechado.

Isane tirou o capuz. Ela parecia tentar escutar e analisar a arena de longe. — Então é aqui que os alunos treinam, certo? Provavelmente não vamos nos envolver em um combate direto, deve ter um desafio a mais envolvido… O que você acha, Lucen?

— Bom, com certeza a escola não quer alunos mortos. — Respondi brincando. — Se for um confronto, deve haver outro objetivo. Capturar bandeiras, talvez… ou encontrar algo na arena.

Percebi que o número de participantes foi reduzido pelo menos pela metade. Enquanto centenas de participantes compareceram à primeira fase, muitos deles já devem ter desistido nesta segunda. Considerando que cada prova vale dez pontos, quem não pontuou bem na primeira, provavelmente já desistiu.

Eu me abaixei para amarrar meus cadarços, quando ouvi aquela mesma voz rasgada ecoando pelos alto-falantes. Dessa vez, aquele homem parecia um pouco mais incisivo do que antes, mas pode ter sido apenas a minha impressão.

— Todos os participantes que desejam continuar para a segunda fase, desçam até a arena de treinamento B. Os que não forem até a segunda fase, estarão desqualificados da competição.

Acenei com a cabeça para Isane e Rudan, e eles concordaram quase imediatamente. Descemos as escadas do leste da arena, acompanhados de alguns outros estudantes. Chegando na arena, o ambiente estava mais frio do que antes, mas pelo menos não era tão frio quanto o lado de fora.

— Para a segunda fase, realizaremos uma Batalha Quarteto. Por conta disso, vocês terão dez minutos para se aliar com três aliados. As regras não serão reveladas ainda.

— Batalha Quarteto… acho que vamos precisar de mais uma pessoa. — Rudan disse ao cruzar os braços e levar uma das mãos até o queixo.

— Você quer mesmo fazer parte do nosso time? — Isane tentava esconder o rosto usando o capuz.

— Claro que sim! Com quem mais seria? Seremos uma grande equipe! — Rudan afirmou com clareza, fazendo uma pose orgulhosa com os olhos fechados. Ainda fez questão de apoiar um dos pés numa pedra.

— Rudan… todos eles estarão de olhos em mim e no Lucen. Tem certeza disso? — Isane insistiu no questionamento, afinal, tem certa lógica. Tenho certeza de que as pessoas vão focar nela e em mim, assim Rudan teria dificuldade em se classificar. Quando a vi, não pensei que ela seria o tipo de pessoa que se preocupa com os outros, por mais que ela nunca demonstre de forma hiperbólica.

— Ah, nem pensei nisso… Melhor ainda! — Ele sorriu. — Posso servir como um elemento surpresa, eles vão se arrepender de nos enfrentar.

— Gosto do seu entusiasmo, Rudan. Podem deixar, eu vou guiá-los para a vitória. — Sorri para eles, eu devo mostrar que posso liderar e que eles podem confiar em mim. — Tudo bem, vamos formar uma equipe. Mas não sabemos então quem devemos chamar… 

— Podemos chamar alguém inteligente.

— Podemos chamar alguém forte.

Falaram ao mesmo tempo, se entreolharam, como se cada um achasse que o outro tinha dito algo sem sentido. Fiquei alguns segundos em silêncio, olhando para os dois. — Tá, vou procurar um fisiculturista com diploma de doutorado…

— Seria melhor ir atrás de uma máquina, se for esse o caso… Eu tenho uma ideia. Devemos chamar a pessoa mais diferente por aqui.

— O que você quer dizer com alguém diferente? — Assim que Rudan falou, ele olhou para uma garota de longos cabelos escuros entrando no meio das árvores, procurando alguma coisa.

— Acho que é diferente o suficiente. — Isane resolveu ir atrás dela de imediato, parece que foi algo predestinado.

Assim que a seguimos, vi que ela entrou em uma área quase que fechada no meio das árvores, algo que poucos conseguiriam notar. Ela estava agachada ao lado de algo caído no chão.

— Perdão em me intrometer, mas já me intrometendo, o que cê tá fazendo aí? — Rudan quebrou o silêncio, mas ela parecia nem prestar atenção.

— Pronto, pronto… tá tudo bem agora, amiguinho. — Quando chegamos, vi que ela estava cuidando de um passarinho branco que havia caído na neve, tentando colocar a asa dele no lugar. Isane se aproximou, ficando ao lado dela e resolvendo ajudar, e colocou uma das mãos sobre a asa ferida do pequeno pássaro.

Chi-on no uta… — De novo, o mesmo efeito de quando Rudan havia queimado a mão ao encostar em Miken, com a mesma canção — ondas leves de energia se uniram em volta do pássaro, e em alguns segundos, abriu os olhos e começou a voar, saindo dali.

A garota deu um longo suspiro de surpresa, tomada por alegria. — Pai dos céus! Muito, muito, muito obrigada, meu anjo! — De um modo muito abrupto e instantâneo a garota abraçou Isane, que ficou sem reação.

— Não foi nada… — Isane tentou se afastar devagar, mas a garota continuou grudada nela.

— Vocês têm minha gratidão. Vi essa criaturinha indefesa machucada voando para cá… ainda bem. — Ela estava com uma entonação tão maravilhada que parecia prestes a chorar a qualquer momento. Ainda assim, para ela ter visto um pássaro branco com a asa quebrada no meio de um lugar coberto de neve como este, com certeza tem experiência nisso.

— Ah, agradeça à Isane. — Rudan disse apoiando as mãos sobre os ombros de Isane. — Ela é incrível, não é?

— Não foi nada… — Isane fechou os olhos, não dava para saber se ela estava se sentindo envergonhada, cansada ou pouco irritada. Talvez um pouco dos três.

— Desculpe-me por interromper, mas ainda não sabemos seu nome. — Fui até o grupo e me aproximei da garota. — Sou Lucen Osfner.

— Oh, perdão, perdão! — Ela se levantou, arrumou a própria roupa e deu um sorriso. — Me chamo Kasia, dos Fu’aal! É um prazer conhecê-los…! — A garota respondeu com certa timidez. Quando mencionou o sobrenome, entendi o motivo. Fiquei em silêncio por alguns instantes.

— Eu sou Rudan Moriel, e a nossa pequena cantora é a Isane, muito prazer! — Rudan falou estendendo a mão para Kasia.

— Cantora…? — Isane olhou para o rosto de Rudan ainda sem expressão, encostando o punho nele, dando um soco falso.

— Oh… espere, vocês dois estão no pódio, não é? — Kasia disse enquanto apontava para mim e Isane. — Agradeço por me ajudarem, de verdade… é muito importante para mim.

— É… Todos vão estar de olho em mim e no Lucen… — Isane arrumou a franja do cabelo com uma das mãos.

— Que bom. Dá mais gosto vencer com todo mundo olhando. — Kasia parecia confiante, para dizer o mínimo.

Fiquei no vácuo… — Disse Rudan. Fui lá e apertei a mão dele.

— Os Fu’aal são muito ligados com a natureza, certo? Eu sinto muito por você, Kasia. — Como se não tivesse contexto, falei sobre a tribo dela.

— S-Sim… você conhece nossa tribo? — Kasia perguntou um pouco deprimida. Ela talvez já imaginava o que eu estava querendo dizer.

Fiz uma pausa, ainda com as imagens na memória. — Eu… assisti os jogos do ano passado.

O rapaz que morreu durante a transmissão dos Jogos Mágicos, no ano passado, tinha roupas muito parecidas com as de Kasia.

— Eu imaginei… Não, está tudo bem. Ele foi aos céus. É assim que acreditamos… E isso me conforta. — Kasia olhou para o céu em um longo suspiro, juntando ambas as mãos à altura do peito.

Isane me cutucou com o cotovelo nas costelas.

— Mano, colocou o clima lá embaixo… — Rudan deu um tapa nos meus ombros.

— Ei, está tudo bem… Na verdade, muito obrigada… Eu não posso me esquecer dele. Devo continuar vivendo por ele. — Por mais que estivesse triste, as palavras de Kasia ecoaram na minha cabeça.

Pelo instinto, antes que pudesse pensar no que dizer, as palavras começaram a sair da minha boca. — Você está viva. Enquanto você se lembrar dele, ele viverá, através de você. Eu gosto de pessoas com esse espírito. — Estendi a mão. — Venha fazer parte da nossa equipe!

Kasia apertou minha mão com força, dando um sorriso. — Prometo que não irei decepcioná-los!

Rudan socou a palma da própria mão. — Fechado então! Time formado!

— Vou dizer que não esperava que meu time fosse ser um pica-pau maluco, uma ninja e uma druida… Pelo menos temos diversidade nas classes de RPG. — Dei uma leve risada.

— Eu não sou uma ninja. — Disse Isane, impassível como de costume.

— Ah… eu gostei de druida. — Kasia sorriu.

— E eu não sou um pica-pau! — Rudan bateu as asas, fingindo estar indignado.

— Curioso que o problema foi o pica-pau, não o “maluco”. — Comentou Kasia, rindo.

— Ah é. Eu não sou maluco! — Rudan bateu as asas ainda mais rápido.

Antes que mais alguma piada surgisse, as luzes da arena piscaram brevemente, seguidas por um eco familiar. A voz rouca daquele professor soou mais uma vez pelos alto-falantes.

— A prova irá começar. Por favor, formem equipes de quatro pessoas e entoem seus nomes.

— Lucen Morvaen Osfner. — Fui o primeiro a responder, levantando o braço.

— Kasia Fu’aal. — Ela levantou a mão com leveza.

— Isane Tsuka. — Com as mãos nos bolsos do casaco, ela limitou-se a olhar para cima e dizer o próprio nome.

— Rudan Moriel! — Dando um grande salto e erguendo o braço com tudo, Rudan se apresentou.

Quatro faixas amarelas e quatro coletes com alvos desenhados apareceram na nossa frente. Os objetos emergiram de pequenos portais azuis que se abriram no ar e logo se fecharam.

— Olha lá. — Kasia apontou para uma grande tela que estava bem alta nas paredes do domo da arena de treinamento. Nele, já estava a equipe amarela, junto com nossas fotos. No telão, também estava exibida a equipe vermelha, formada por quatro pessoas.

— É aquele cara… — Disse Isane.

— Miken Idiotariel. — Murmurou Rudan.

— Seja contra quem for… nós venceremos. — Puxei meu cachecol para cima, ao mesmo tempo em que outros quartetos surgiam no telão, representados por outras cores — eram pouco mais de vinte equipes… Já desceu para menos de cem participantes.

Após todas as equipes serem formadas, outro professor deu alguns passos para frente no mezanino logo acima da arena. Era alto, de postura impecável, vestindo um blazer marrom sobre uma camisa preta e óculos de armação reta. Sua voz era mais altiva e ressoava com firmeza, diferente do tom mais rasgado e cansado do outro examinador. — Participantes. A segunda prova se chama Marca-Alvo. Prestem atenção.

Ele aguardou alguns segundos, observando se todos estavam atentos. O ar parecia mais denso.

— Cada equipe é representada por uma cor, já visível na tela da arena. Vocês devem proteger seus aliados e pontuar contra os demais times. Todos os membros usam bandanas de seus respectivos times e coletes com um sensor nas costas — é nele que os alvos devem ser atingidos.

Olhei de novo para os coletes e as faixas que estavam no chão, amarrei uma das faixas na minha testa.

— O funcionamento é simples: cada sensor possui um LED que acende em ciclos aleatórios. Quando aceso, vocês podem marcar pontos — acertando os sensores nas costas dos oponentes. O LED permanecerá aceso por dez segundos, depois se apagará por um intervalo aleatório de até dez segundos, e assim sucessivamente.

— Mas prestem muita atenção. Antes da prova começar, cada equipe deverá escolher quem ocupará o papel de Rei. O Rei não pode ser eliminado, e não pode ser ferido — mas só pode marcar dois pontos. Já os três Peões têm três vidas e podem marcar até seis pontos cada. Quando um peão perde todas as vidas, ele é eliminado — mas os pontos acumulados continuam com a equipe.

— A função de cada membro será secreta para os demais times. Usem isso com sabedoria.

— A prova terá duração de trinta minutos. Ao final, a pontuação total da equipe será dividida por dois, esse valor será, então, o número de pontos que cada membro do time receberá.

Ele fez uma breve pausa, então concluiu. — Espalhados por essa floresta, diferentes armas de madeira foram produzidas para que vocês possam ter vantagens durante os combates. Estejam prontos. Boa sorte.

Nós quatro nos entreolhamos. Nada mais precisava ser dito. A segunda fase começou.

créditos:
escrito por Vicarious Leal

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