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Capítulo 5 - Segunda Fase, Parte 1

Um temporizador apareceu no telão, um ícone de relógio e números fazendo uma contagem regressiva de cinco minutos, junto com a mensagem “Escolham o Rei”. Fiquei em silêncio por alguns segundos, até perceber que meus aliados estavam olhando para mim, esperando ordens.

Rudan, como de costume, quebrou o silêncio. — Então… quem deveria ser o rei? Alguma ideia? Kasia, Isane, Lucen?

— Bom… não faz sentido que o rei seja o Lucen? Quero dizer, ele com certeza vai ser o mais focado, não é? — Disse Kasia, olhando para os lados. Acho que ela já estava procurando uma das armas.

— Exatamente. É por isso que eu não vou ser o rei. Vamos lá, eu tenho um plano. — Nos reunimos em uma roda, onde decidimos quem seria o rei e qual seria a nossa estratégia.

— …Eu acho que não conseguiria pensar em algo melhor. — Isane assimilou a ideia em poucos instantes.

— Que doideira! — Rudan sorriu apontando para mim com os dois dedos indicadores, como se estivesse fazendo duas armas. — Gostei do plano, hehehe!

— Então está decidido. Vistam seus equipamentos, falta um minuto. — Assim que decidimos quem seria o rei, cada um vestiu seu colete. O sensor ficava preso às costas, tendo um formato de alvo. Era um teste que tinha como principal fator a precisão, um segundo a menos ou a mais nessa prova poderia significar a vitória ou a derrota, mas, com nossa estratégia, este não será um problema.

Assim que a sirene tocou, partimos com tudo nos separando pela arena em dois grupos. Isane e Kasia estavam juntas na mesma direção, eu corri sozinho por outro caminho, por último, Rudan, que ficou parado. Enquanto corria, eu não parava de contar — um, dois, três, quatro, cinco, seis… — estava com o cérebro a mil por hora.

— Acendeu! — Gritou Rudan, que estava atrás de nós. — Valeu, pássaro. — Rudan levantou voo, pairando no céu com suas asas. Regularmente, eu olhava para cima para olhar para ele.

Em pouco tempo, para minha sorte, achei uma arma, uma machadinha de madeira. Não era o ideal para mim, mas poderia servir para algo.

Ouvi passos pela floresta vindo do meu lado esquerdo, então me escondi atrás de uma árvore, com cuidado para não acionar o LED. — Na verdade, espera. Por acaso perdemos vidas se encostarmos o LED no chão ou em alguma superfície? Não especificaram isso, eu que não vou testar agora… — Tinha mais de uma pessoa, eram no mínimo duas… ou melhor, três. Eles acabaram passando por mim sem notar minha presença.

O primeiro é forte fisicamente — e pelo visto gosta de se exibir — estava usando uma camisa regata nesse frio para deixar os músculos à mostra.

O do meio era meio magro e tinha um olhar mais afiado. Parecia ser mais atento e esperto que os outros dois.

O terceiro é mais alto, cabelo raspado dos lados e olhar disperso — o tipo que segue ordens, não que lidera.

Era a equipe marrom, eu pude ver pelas faixas amarradas… Ainda não era hora de atacar, os LEDs estavam apagados — por pouco tempo… — Continuei olhando para eles, cerca de quatro segundos depois, os LEDs acenderam. Segurei a machadinha com toda a minha força, respirando fundo.

Análise.
A magia mais básica de Táticas de Batalha. Meus olhos brilhavam em azul, de forma quase que imperceptível, parecia que eles se moviam mais devagar. — Use o cérebro na hora de atacar. Analise o padrão de movimento do inimigo, seus pontos cegos, ataque no momento exato. — Eu posso evoluir ainda mais nessa técnica, por mais que seja a primeira magia que aprendi, a primeira que meu pai me ensinou. Me lembro de suas palavras — Não se trata de o quão forte você ataca, e sim, quando você ataca.

Respirei fundo — Um, dois, três, quatro, agora. — e arremessei a machadinha que acertou o alvo do colete do que estava no centro.

— Alguém me acertou! — Ele exclamou logo em seguida, olhando para os lados enquanto pegou a machadinha.

— De onde?! — O mais alto da equipe começou a procurar também, e então o outro acompanhou.

Um ponto para nós! — Saí de meu esconderijo, ainda com a contagem em minha mente, enquanto corria na direção deles o mais rápido que podia. Os LEDs ainda estavam acesos, mas iriam se apagar em breve.

— Ali! É o Osfner! — O cara de regata apontou para mim, enquanto vi os LEDs apagando. Ótimo. O meu apagou também.

— A luz apagou! Não ataca ainda! — O magrelo gritou para eles. Passei correndo do lado deles assim que ele gritou. Agora sei que eles estão me olhando, então girei o corpo enquanto apoiei uma das mãos no chão gelado, ficando de pé logo em seguida.

— Três contra um, meio covardia, não acham? — Dei um sorriso enquanto olhava para eles.

— Covardia é ficar escondido e atacar pelas costas. — O mais magro respondeu, apontando a arma na minha direção.

Ficamos nos encarando por alguns segundos… Até que eu escutei um grito.

— Acendeu! — Você é demais, Rudan. Tenho dez segundos. — Um…

Os três demoraram um pouco para entender — Dois… — então, os outros dois tentaram vir na minha direção, enquanto o da machadinha acompanhava de longe. — Três… — Esperto, ótimo trabalho de equipe. Bom… nem todo usuário que usa magia corporal é focado em força bruta.

Magia Marcial, Primeiro Ataque.
Magias Marciais, técnicas que surgiram com o mesmo tipo de ensinamento das antigas escolas de artes marciais, mas, que também tinham em sua essência o uso da magia correndo pelo corpo. No caso do Primeiro Ataque, tinha como principal característica o contra-ataque — Atinja o inimigo, antes que ele te acerte. — Quem me disse isso foi um dos meus tios…

Quatro… — O primeiro foi muito fácil, tentou me acertar um soco. Apenas dei dois passos para trás, empurrando o braço dele para longe. — Cinco… — O segundo veio correndo meio encolhido, parecendo um touro, mirando na minha perna.  — Seis… — Peguei impulso após o segundo passo, saltei por cima dele e tentei um chute nas costas, mas ele segurou minha outra perna. — Droga, perdi a contagem… — Fiquei um pouco frustrado — se ele fosse um pouco mais baixo… — eu fui imprudente, pois a neve me fez escorregar, e ainda por cima minha perna estava presa.

Antes dele conseguir me jogar contra o chão, dei uma cotovelada na cabeça dele, fazendo-o me soltar ao passo que o mesmo caiu no chão, mas não antes de fazer com que eu tivesse que girar o meu corpo e ficar de costas para o cara com a machadinha… Eu sorri ao olhar para trás. Para minha sorte, eu não estava sozinho.

Rudan mergulhou dos céus e acertou um chute voador direto no alvo do colete dele. — O apoio aéreo chegou!

O rapaz que estava prestes a arremessar em mim foi derrubado na hora ao mesmo tempo que gritou com dor, deixando cair a arma de suas mãos. Eu não perdi tempo, apenas toquei no alvo das costas do cara alto que segurou minha perna — E é mais um ponto pra equipe amarela.

— Bora meter o pé! — Rudan estendeu a mão para mim, pegando a machadinha do chão com a outra.

Segurei o braço dele, que nos levou voando o mais longe possível. Ele não conseguiria aguentar o peso de nós dois por muito tempo, então apenas tomamos um pouco de distância, Rudan estava olhando o LED para me soltar enquanto estivesse desligado, caímos em um local que amorteceu a queda por ter uma espessa camada de neve, era um espaço aberto com poucas árvores.

— Valeu, com isso são três pontos… mas não podemos parar agora. — Disse para ele, enquanto fizemos um toca aqui.

— Três, é? Não teria tanta certeza. — Rudan apontou para o telão. Isane e Kasia marcaram um pouco cada. — Cinco! Estamos na frente!

Olhei para o telão e vi a maioria das equipes sem pontuação alguma. Uma delas — a laranja — já tinha perdido um membro. A equipe de Miken, por outro lado, já estava com 3 pontos. Aquilo me irritava um pouco — ele tinha cara de quem jogava sujo.

— Ótimo! Elas se esconderam conforme o plano? — Perguntei de volta para ele.

— Sim, estão aqui por perto. Vi que você estava com problemas e disse nosso código secreto, cachecol.

Nosso plano era simples. É impossível saber quando os LEDs vão acender, apenas que eles ficam acesos por dez segundos. Então, bastava que Rudan fosse nossa torre de vigia, para ajudar a marcar o tempo. Cada um de nós tem codinomes — Cachecol, Ninja, Pássaro e Druida — quando usamos isso, quer dizer que a pessoa na qual estamos nos referindo está com problemas, informando que você vai ajudá-la. Por isso, Isane e Kasia se esconderam, já que não tinham mais o apoio aéreo de Rudan.

— Beleza. Rudan, vê se tem alguém por perto. — Assim que ele ergueu voo, olhei para o lado, vendo algo voando na direção dele. — Cuidado!

Rudan se esquivou e não foi atingido por um dardo que veio na direção dele por pouco.

— Posso ver vocês! — Rudan apontou na direção de duas pessoas. Quando os vi, notei que eram da equipe verde — já tinham quatro pontos.

O primeiro era um rapaz um pouco mais alto que eu, com cabelo cinza e olhos de uma cor entre o azul e o verde. Não sei dizer o porquê, mas algo nele dizia que era inteligente. Ele estava segurando uma besta leve.

A segunda era uma garota um pouco mais baixa que eu, cabelos loiros levemente ondulados em um penteado que passava um pouco a altura dos ombros, destacando-se por seus olhos cor de rosa. Ela parecia muito perspicaz, mas segurava uma lança de um modo um tanto estranho.

Notei que os dois também usavam Receptores de Tradução — Droga, eu errei. — Disse o rapaz.

— Ei, vocês. — Apontei na direção deles, e disse — Vamos fazer uma trégua.

Olhei para cima. — Desce aqui, Rudan!

Os dois me olharam confusos, e até mesmo Rudan levantou uma sobrancelha, mas ele desceu mesmo assim. Fui até eles após baixarem as armas, com Rudan me seguindo. Provavelmente, por eu ser um Osfner, eles sabiam que não é comum para nós usarmos truques sujos.

— O que você quer? — A garota tentava soar um pouco séria e intimidadora, mas o tom de voz dela era calmo e suave, o que impediu que soasse dessa forma.

O rapaz olhou para ela, com certo rubor no rosto, e depois olhou para mim. — Você quer fazer uma aliança?

— Bom, acho que serve como bônus. Mas, eu só queria falar que você está empunhando essa lança de maneira incorreta. É um pouco mais para cima, assim, olha. — Fiquei do lado dela e tentei fazer ela entender melhor, mas vi que a lança era um pouco pesada para ela mesmo.

— Lucen, você tá ajudando os nossos adversários…? — Rudan ficou olhando pra mim embasbacado — A gente poderia estar pontuando agora!

— Relaxa Rudan, esse tipo de coisa é importante! Fazer um network… Esse tipo de coisa… — Disse em um tom irônico e voltei a falar com eles. — Você não está conseguindo, talvez a lança seja pesada demais?

— Hein? Network? Você é doido? — O rapaz respondeu um pouco confuso enquanto eu e Rudan conversávamos.

— É… é meio pesada mesmo, apesar de ser de madeira. — Ela admitiu frustrada. Eles pareciam um pouco mais confortáveis agora, acho que entenderam que eu não iria atacá-los.

— Hmmm… Querem trocar? — Fui até Rudan e levantei a machadinha da mão dele. — Vai ser mais útil para vocês. A machadinha pela lança, que tal?

— Parece uma boa ideia. Desculpa April, não notei que estava pesada… Eu deveria ter me oferecido para trocar de arma… — O rapaz dava sinais de constrangimento.

— Ah, não… tá tudo bem, eu que fui cabeça dura e não quis falar… desculpa… — A garota, que descobri que se chama April, ficou um pouco corada por causa do rapaz. Já entendi tudo, o amor está no ar.

— Lucen, cê tem certeza que isso é uma boa ideia? — Rudan estava perdendo a cabeça comigo, mas entregou o machado.

— Foi você quem disse que não precisava de armas. Não vai fazer mal. — Ergui os braços e encolhi os ombros.

April entregou a lança para mim. — Obrigada, acho que vai ser bem mais útil, não é tão pesada.

— Ok, vamos nos separar aqui, a prova ainda não acabou. — Olhei para os dois já me afastando.

— Tudo bem, não vamos atacar vocês. — O rapaz falou um pouco mais alto conforme eu e Rudan nos afastamos.

— Espera, você não disse seu nome! — Exclamei para ele.

— Ah, é Pietro! — Levantou a besta para cima, dizendo ainda mais alto.

— Vejo vocês depois! — Gritei já do outro lado do campo.

Não tínhamos mais tempo a perder. Corri ao lado de Rudan enquanto buscamos por Isane e Kasia, mas ele não deixou de me perguntar o porquê eu fiz aquilo, um pouco bravo. — Lucen, você bateu a cabeça lutando contra o time marrom, foi?

— Não é isso, é muito simples. A arma que eu mais sei usar são lanças, só isso. — Querendo me mostrar, cravei a ponta da lança em uma árvore, usando ela como uma barra para pegar impulso, puxando ela junto comigo de novo. A ponta não era muito afiada, notei logo de cara.

— Tá só um pouquinho metido… Mas entendi, você queria garantir que ia marcar mais pontos depois. — Rudan balançou a cabeça com um meio sorriso. — Só tenta não dar aula pros inimigos na próxima, beleza?

Continuei correndo ao lado dele, e em poucos segundos ele colocou o dedo indicador em frente à própria boca, pedindo silêncio.

— Acho que eu ouvi alguma coisa. — Ele apontou para uma árvore mais antiga à frente, com fortes galhos e muitas folhas.

Nos aproximamos com cuidado. Rudan alçou um voo curto, segurou um dos galhos com a mão.

— Te encontrei! — Rudan segurou a perna de Isane, tentando dar um susto nela. Não preciso dizer que não funcionou. — …Funcionou?

Isane balançou a cabeça, ainda de costas para ele, informando que não.

— Ah, qual foi… — Ele disse cabisbaixo.

— Hihi… — Consegui ouvir uma pequena risada de Kasia lá de cima. Ela estava agachada em um dos galhos mais altos, quase camuflada entre as sombras e a neve, os olhos atentos ao terreno. Isane estava mais abaixo, deitada sobre dois ramos, com o capuz e uma expressão concentrada, o tipo de coisa que você iria esperar de um caçador.

Olhei para cima e disse em um tom de brincadeira, logo depois subi em um galho. — Cachecol e pássaro de volta ao quartel general.

— Estratégia realmente impressionante, Lucen… e muito obrigada por ter ajudado a gente, passarinho! — Kasia disse usando os galhos como se fosse uma escada, ela parecia saber fazer aquilo desde que era criança. Ela juntou as mãos, fechando os olhos enquanto sorria para Rudan.

— Eu não sou um passarinho… — Rudan coçou a parte de trás com a cabeça, um pouco acanhado.

— Ah, você é uma gracinha com vergonha! — Kasia passou a mão em cima da cabeça dele. Rudan ficou desesperado e pude ver que ele clamava por ajuda.

— E-Ei, para com isso… Não tô acostumado com elogio não… — Rudan fingia estar desconfortável com sua fala, mas ele estava curtindo. Ele fica bem menos impulsivo perto dela… Eles até são bonitinhos juntos.

— Não foi nada… Poderia ter sido melhor… Fiquei sozinho contra três, se o Rudan não tivesse me ajudado… — Suspirei.

— Se eu não tivesse escorregado… poderia ter vencido sozinho. — Eles não eram tão habilidosos assim…

— Ei, menos, vai. — Rudan foi até mim e deu um tapinha nas minhas costas. — Não se cobra tanto, é sobre trabalho de equipe, né não? Não é pra fazer tudo sozinho!

Fechei os olhos e dei um sorriso, agradecendo. Estou solitário faz algum tempo… — Você está certo.

— Ei, Isane! Cê tá meio quieta, tá fazendo o que aí? — Rudan voou até ela e deitou-se ao lado, a imitando.

— Não me desconcentra. Qual é o valor no placar? — De perto, vi que Isane segurava um arco. A ponta da flecha, assim como a minha lança, não parecia ser muito afiada. Afinal, ninguém quer um escândalo de um aluno matando o outro.

— Caramba, a equipe vermelha passou a gente. Sete — Kasia foi interrompida com eles pontuando no meio de sua fala —  Oito pontos… E a equipe azul já está bem na frente, com dez. — Ela informou para Isane.

Olhei para cima da tela e notei algo curioso — Miken não havia pontuado — Será que é soberba, ele deixando para pontuar depois…? Não, tem algo a mais aí.

Enquanto fiquei nas minhas teorias sobre o que Miken estava pensando, Isane continuou com seu plano. — Tenho uma teoria. Considerando o quanto ele é infantil. — Estava imerso em meus pensamentos, quando voltei, ouvi o resto da conversa deles.

— Kasia… consegue ver quantas vidas cada um da equipe azul ainda tem? — Ela perguntou, sem tirar os olhos do horizonte.

Kasia olhou para o telão mais uma vez. — Uma delas está com uma vida só, a garota de cabelo castanho. Os outros ainda têm três ou duas.

Ela havia puxado a corda do arco. Olhos fixos, Isane estava até mais concentrada do que eu. — Entendi. — O disparo foi no instante após ela dizer a frase. A flecha voou entre os galhos com uma enorme precisão, mesmo com uma distância considerável. A garota que Kasia havia mencionado agora estava com a foto apagada no telão.

— Na mosca. — Isane ficou de pé e comemorou de maneira singela, guardando o arco.

créditos:
escrito por Vicarious Leal

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